
Sinto falta de um passado que não volta…
E não quero que meus filhos passem pela vida sem experimentar esse sentimento.
Só sentimos falta das coisas que já tivemos, das que já vivemos e eu posso falar com toda certeza do mundo que minha infância foi extremamente feliz.
Corria, brincava com os amigos — aliás, tinha muitos amigos, coisa que hoje em dia é raro de se ver entre as crianças — ficava na rua até tarde, subia em árvores, escalava muros, fazia pipas, carrinhos de rolimã, jogava caçador, bete ombro, futebol…
Minhas melhores lembranças sempre me levam de volta para a rua, ou para lugares abertos, ao ar livre, sempre com amigos ou primos. As melhores brincadeiras não estavam fechadas dentro de casa e lembro que nas férias, os dias de chuva eram sempre os mais tediosos.
E mesmo quando o tédio batia, ainda existia aquela coisa de inventar brincadeiras, os jogos de tabuleiro, palavras cruzadas, batalha naval, o bom e velho “stop”… Sempre imaginando mais que abrindo caixas ou “ligando” coisas.
Egoísmo: Sua segurança “me” traz conforto
Quando penso então que quero que meus filhos tenham lembranças tão ricas quanto as minhas, lembro que muitas vezes dizemos “não” para ideias ou brincadeiras que eles estejam aprontando exclusivamente por egoísmo.
Na correria do dia a dia, às vezes nos parece mais seguro que eles fiquem por perto, imóveis, ligados em seus celulares, tablets e tvs do que estejam ali fora longe do nosso olhar e fazendo alguma coisa que, se der errado, nos fará perder horas cuidando do assunto.
Essa pode ser uma visão estranha? É sim! Por isso a chamei de egoísta.
Quando um filho se machuca sabemos que nosso coração pula da boca e só queremos vê-lo de novo sorrindo e brincando seguro perto de nós mas, admita:
Quando seu filho chega perto de você com uma ideia maluca de um brinquedo, (uma geringonça, na verdade) algo completamente absurdo que ele quer montar no quintal para fazer algo ainda mais insano, a primeira coisa que você pensa é:
“Putz… Lá vou eu perder horas no pronto socorro com braço quebrado, como aquela vez lá que ele fez tal e tal coisa…”

Ou ainda: “Deus me livre! Se você se corta, se você se quebra, vou ser eu que vou passar noites em claro do lado da sua cama cuidando de você! Larga isso agora!”
Todos já passamos por esse sentimento e ele está intimamente ligado ao bem mais precioso que temos, como seres humanos nesse momento da sociedade: Tempo.
Existe amor e cuidado com o filho? Lógico! Mas se o fator tempo não estivesse gritando em nossa mente todo tempo, o que te impediria de deixar o que está fazendo de lado e ir até lá fora ao menos ver de perto a tal geringonça que ele está montando?
Compreende o que eu enxergo?
Prezamos pelo bem deles, mas muitas vezes estamos tentando fazer um “combo da tranquilidade”: Impedimos a criança de brincar solta fora de casa querendo protegê-la de qualquer risco possível, ao mesmo tempo em que estamos salvaguardando nosso tempo, antes que ele seja gasto em filas de espera de um pronto socorro.
Precisamos mudar a forma como enxergamos isso já. Eu e você.
Os Ambientes Artificiais e seus desdobramentos
Aqui em casa tenho espaço de sobra para as crianças, e compreendo que essa não é a realidade da maioria dos pais. Somente talvez os mais abastados, o que não é o meu caso, me considero um cara de sorte mesmo por viver onde vivo sem custos abusivos.
Eu sei que a maioria dos meus amigos, por exemplo, precisa lidar com a questão de educar os filhos em apartamentos pequenos, contando somente com playgrounds de condomínio ou os parquinhos das escolas.
Isso faz com que as crianças praticamente não entendam mais o que é um ambiente natural. Ali dentro, nos parquinhos, tudo é controlado: Os brinquedos não tem “quinas”, não cortam, não machucam.

O chão muitas vezes é forrado por E.V.A. ou outro material, amortece quedas. Há o olhar atento das “tias”, as profissionais que cuidam dos nossos filhos quando não estamos por perto e, se entrarmos neste âmbito ainda temos que levantar a questão da profissão delas.
Elas são pagas para que desempenhem esse trabalho, cuidem de nossos filhos. Então, caso alguma coisa aconteça com eles, nos sentimos no direito de “ir pra cima” dessas pessoas, afinal de contas, elas são pagas para isso, não é?
Com a “autorização” que o pagamento de um salário ou mensalidade nos outorga, delegamos para elas a função de cuidar das nossas crianças. Sendo que os pequenos poderiam se machucar também diante dos nossos olhos, da mesma forma.
Aí, o que acontece com os espaços artificiais? Como essa situação do cuidado com as crianças é uma bola de neve, que envolve dezenas de situações e pessoas, os espaços estão cada dia mais planejados para que elas não corram risco algum estando ali dentro.
“Não corram risco algum…” Preste atenção nessa frase por um instante.
Se esqueça do seu filho agora e se lembre de você quando pequeno.
Consegue pensar em um momento da sua infância em que correu riscos e que, saindo ileso (às vezes nem tanto), também teve um aprendizado gigante?
Essa é a função do brincar na vida de uma criança, ou, como diria Maria Montessori, esse é o trabalho da criança.
E sobre os Ambientes Naturais…
Veja só: Para a criança, o Ambiente Artificial deixa o risco altamente reduzido e completamente previsível. Tudo bem, isso é bom para a segurança dos pequenos e para a saúde mental dos pais.
Mas, é lá fora, no Ambiente Natural que está a grande aventura, a beleza de coisas que nunca foram vistas antes, o mistério das lendas e contos de fadas escondidos em pequenos jardins que, para eles, são florestas maravilhosas.
Ali também se escondem os animais, as picadas, os arranhões, a terra com gosto de açaí (ou vice-versa), as árvores para serem escaladas. É lá fora que a imaginação grita e a necessidade de usar todos os recursos de seus corpinhos em desenvolvimento aparece.

Você pode me dizer que isso tudo, principalmente o lado imaginativo, está dentro dos ambientes artificiais e, com segurança.
Te digo que está sim, também está.
Mas é justamente o improvável, o que não está no roteiro, que fará com que a criança perca a conexão com o mundo que ela já conhece e pode prever, e assim ela precisará agir, pensar diferente.
Nessa hora, tudo muda para ela.
Dentro de um playground, a ausência de uma formiga, de um galho quebrado, de uma poça cheia de barro está fazendo com que ela cresça acreditando que o mundo lá fora é totalmente previsível como o que ela está habituada a ver.
Compreende isso?
As Crianças Precisam de Limites
Não pense que sou um pai completamente maluco, daqueles que deixam os filhos fazerem o que bem entendem para que “sejam livres”.
Não. Eu também não fui criado assim e hoje como pai percebo coisas incríveis que os meus pais fizeram, que tento replicar com os meus pequenos, assim como enxergo algumas coisas não tão legais que não quero repetir, nem de longe.
Quando defendo os ambientes naturais, eu quero deixar claro que a questão do risco é uma coisa séria e que precisamos ficar atentos a isso.
Mas — e isso talvez seja um primeiro passo para os pais que não querem mesmo aceitar que os filhos precisam estar em ambientes naturais mais tempo do que em ambientes artificiais — existem 2 tipos de risco, e precisamos entender bem como eles funcionam.

Segundo Daniel Becker, pediatra e uma pessoa sensacional ligada ao movimento da Pediatria Integral, existem o risco real e o risco percebido.
O risco real é o que poderíamos chamar de “assumido”: Aquele risco que sabemos que estamos correndo e que está totalmente errado, como andar de bicicleta fora da ciclovia em um lugar super movimentado ou deixar uma criança que não sabe nadar ficar perto de uma piscina.
O risco percebido é diferente. É sobre ele que insisto. Ele é o risco que faz com que uma atividade pareça incrível, excitante, inesquecível para uma criança. Nele está presente a possibilidade de algum machucado porém nada grave, e é para ele que precisamos olhar com mais carinho.
Então, quando pegamos uma criança, levamos para um ambiente natural onde compreendemos que há riscos percebidos e incentivamos que ela descubra esse espaço, estamos dando 2 tipos de chances de crescimento para elas.
Ou talvez estejamos na verdade dando chances de crescimento para 2 tipos de crianças diferentes:
- Para aquelas que não entendem o que são limites, a chance de aprender com as dificuldades que surgirão neste ambiente onde riscos percebidos existem. As consequências dos atos dessas crianças nestes lugares serão professores super eficientes, pode acreditar.
- E, para as crianças que têm limites em excesso, que têm medos ou traumas, os ambientes naturais com riscos percebidos são a chance de se libertarem dessas amarras e criarem mais autonomia, baseada nas suas próprias experiências.
E tudo isso pode ser encontrado ali, naquele parque, naquela rua, chácara, fazenda…
Basta que vocês, pais e mães, olhem para estes espaços com mais carinho e analisando os riscos sob outro aspecto.
É preciso que nós, adultos, acolhamos o medo do sofrimento
Recebo muitos contatos todos os dias na Paradome. São mães querendo mais informações sobre os domos e uma pergunta é sempre recorrente:
“Mas é seguro? Tenho medo que meu filho se machuque…”
Antes de falar mais sobre o medo e falando sobre os domos, é seguro sim.
É seguro e necessário ao desenvolvimento das crianças porque dá uma das maiores sensações de liberdade que um humano pode ter, que é a sensação de subir montanhas, em pequena escala.
Agora, falando sobre o medo de que a criança se machuque, o que eu percebo de comum entre eu, estas mães e os meus amigos pais de família é que tudo o que nos move com relação a nossos filhos está sempre baseado em medo.
E isso não é uma das coisas mais saudáveis que podemos fazer por nossas vidas, acredite.

Quando um pai pensa em levar seu filho para um ambiente natural e passa a avaliar os “riscos percebidos” deste local, sua régua para medir esses riscos está sempre baseada no medo, em seu próprio medo, e quase nunca na realidade dos fatos.
Não me excluo disso, não. Não me tomem por um super pai ou um tipo de “Buda das Família”. Longe disso. Mas penso demais sobre essas questões e trago isso aqui para vocês justamente porque o diálogo me ajuda a entender mais essas coisas.
O Caso da Aranha Assassina
Tenho um amigo antigo que pode ser um exemplo dessa questão: Nossos medos refletem em nossas escolhas.
Ele cresceu em um bairro muito úmido aqui em Curitiba, sua casa tinha muitas aranhas. Ele contava que sempre tinha muita naftalina espalhada por todo canto por causa delas e ele, que nunca foi picado, tinha fobia de aranhas.

E fobia mesmo, diagnosticada. Se ele se deparasse com uma aranha em uma situação em que não pudesse fugir, seu corpo paralisava e ele poderia ter uma convulsão por não respirar (a respiração também travava).
Hoje ele é pai de um gurizinho muito gente boa.
Nunca perguntei a ele nada sobre seu filho e as aranhas mas, eu tenho total certeza de que um ambiente de “riscos percebidos” para ele não é um lugar que tenha aranhas.
Agora pense comigo: Um quintal, um parque, uma chácara…
Analisando friamente e sem a presença do trauma que ele possui, eu te pergunto:
Em um dos ambientes que eu cito acima — não uma floresta, certo? — um lugar onde você poderia levar seus filhos — e se a criança não possui alergia a veneno de insetos — qual o “risco real” que ela corre?
O risco percebido são aranhas, formigas, galhos, poças, sapos… Mas qual o risco real?
E o que quero dizer com isso? Que nossos medos são a baliza do que acreditamos ser risco real ou risco percebido para os nossos filhos.
Precisamos então, pelo bem deles, entender e acolher primeiramente os nossos medos, para que eles não se reflitam em nossas crianças, proibindo que elas vivam experiências novas, que desenvolvam suas defesas, suas certeza e até mesmo os seus próprios medos.
Vai ser duro pra gente? Claro que vai! Mas pode ser libertador para os pequenos, acredite.
Somos Mamíferos antes de sermos Seres Sociais
Esqueça agora a ligação entre pais e filhos. Pense somente na questão biológica humana.
Somos uma evolução brilhante, não concorda? Não vou olhar agora para todos os detalhes que nos separam dos nossos ancestrais, mas 2 fatos sempre me chamam demais a atenção:
- Nós desenvolvemos polegares opositores e isso nos permite agarrar coisas, usar ferramentas
- Desenvolvemos nosso cérebro e quanto mais ele se desenvolvia, mais o nosso polegar se deslocava da posição original para a que conhecemos hoje.
E o que isso significa? Que começamos a “imaginar” formas de melhorar a vida que tínhamos e tentamos usar ferramentas. Para caçar, para tecer, para cozinhar, para nos defendermos.
E nosso cérebro continuava se desenvolvendo. Ele nos dava possibilidades de transformar o mundo ao nosso redor e a cada nova pequena descoberta — como enterrar uma raiz no solo e perceber que ela dava mais raízes, mais comida — crescíamos como espécie e como seres únicos.
É fato que as crianças de hoje já nascem incrivelmente mais inteligentes do que as crianças de gerações passadas. Quando ouço aquela brincadeira que diz “ah, eu com 10 anos comia terra” sempre constato, até meio entristecido, que é verdade sim.

Mas, independente do grau latente de evolução da raça humana hoje, cada criança que nasce é uma repetição do ciclo natural da nossa espécie.
E ela nasce com as mesmas aptidões e necessidades de aprendizado que nós tínhamos, que nossa linhagem de mais de 1.000 anos tinha (não vou nem para mais longe que 1.000 anos! Já tá bom!)
Então, quando negamos a essas crianças a chance de aprender mais sobre si mesmas dentro de ambientes naturais, estamos negando a elas uma chance de um desenvolvimento de uma forma mais natural, e com uma velocidade mais natural do que a imputada às crianças hoje em dia.
Crianças sendo crianças pelo tempo que precisarem ser.
Esse é um presente enorme que ainda podemos dar a elas. Pense nisso.
Menos Remédios, Mais Ar Livre: A solução da Pediatria Integral para a Medicalização das Crianças
Medicalização… O nome já parece uma coisa ruim, certo?
E é mesmo, muito ruim.
Em um Ted Talks na cidade de Laçador, no Rio Grande do Sul, Daniel Becker falou algumas verdades que me fizeram pensar bastante sobre coisas erradas que acontecem muito naturalmente na sociedade hoje.

Uma delas é o hábito desgraçado de entupir as crianças de medicamentos para curar algo que não é doença: a energia que elas carregam e que precisa ser liberada.
Os pequenos passam muito tempo fechados dentro de apartamentos, de condomínios, de escolinhas. Tudo seguro e protegido, não só dos perigos naturais como também dos perigos convencionais das grandes cidades. Todos bem, certo?
Errado. Para nós, adultos, é a chance que temos de ter um cotidiano mais ordenado, afinal, o dia é uma loucura e o tempo em que as crianças estão na escola é fundamental para o seu crescimento, tem apoio, atenção, instrução.
Certo, mas elas estão trancadas. Passam o dia todo trancadas em variadas caixas e nós não percebemos isso. É o apartamento,depois a escolinha, aí o ballet, o judô, o curso de idiomas.
Aí chegam novamente em casa — a mais conhecida caixa — e dormem afinal de contas, estão absolutamente cansadas e no dia seguinte a sequência da “troca de caixas” continua.
No final de semana, opa!
Mais uma caixa, dessa vez maior: O Shopping.

Ali, valores deturpados (consumismo, alimentação errada, sexualização precoce) e mais ambientes fechados as esperam. E então chega a segunda feira novamente e, as caixinhas retornam!
Os resultados dessa “vida em caixas” são muito tristes
Essas crianças são estimuladas por imagens, cores e informações que não são ideais para a sua idade e ainda ficam completamente distantes dos ambientes naturais, onde poderiam aprender de verdade, sentir coisas que são necessárias na idade delas.
E o que acontece? O corpo todo reage ao que não é normal. Aparecem doenças estomacais, insônia, obesidade infantil, depressão, déficit de atenção…
E como se resolve tudo isso? Com medicamentos. Coisas muito piores do que aqueles “benflogins” que nossas mães morriam de medo que usássemos na adolescência para ver “as coisas coloridas”.
É… As crianças estão tomando remédios de tarja preta antes dos 10 anos de idade e estamos fechando os olhos para isso.
E qual seria a saída para essa situação?
De acordo com a Pediatria Integral: Brincar ao ar livre com seus pais.
Uma hora por dia, sem eletrônicos, sem brinquedos caros, se sujando, suando, tomando chuva se possível. Uma hora por dia de atenção total dos pais e em contato com um pouquinho de natureza.
O preço que pagaremos por esse tratamento? Uma moeda muito cara para nós, adultos, mas precisamos aprender a lidar com ela: Tempo.
Pagaremos por esse tratamento com o nosso tempo.
Eu estou nesse aprendizado, estou tentando fazer o meu melhor por pouco que ainda seja hoje.
Tente, você vai perceber as maravilhas da mudança.
A teoria “Anti Condomínio”
Você deve se lembrar de algum lugar onde brincava quando era criança e que te parecia gigantesco, certo?
Tempos depois, andando por ali, você viu que não passava de um jardinzinho com poucos metros quadrados e não conseguia entender como é que ali cabiam: O carro do Batman, a Estrela da Morte e o Castelo de Greyskull.
Se você lembrou disso, acabou de se lembrar também de como é ver o mundo com os olhos de uma criança. Então, aquele pedacinho de quadra com gramado que para você parece tão pequeno, para ela, é mesmo um outro planeta.

Se é o que você tem por perto hoje, use! Vai valer a pena!
Há um conceito que tem sido bastante comentado hoje em dia, principalmente em grupos de simpatizantes das pedagogias Waldorf e Montessori e que fala algo como “retirar as crianças de dentro dos condomínios” e levá-las para os parques e praças.
Acho essa teoria bastante interessante assim como as conversas que tem vindo a partir delas.
Não é algo simplista como “saia do apartamento e arranje uma casa para morar”, nada disso. Esse tema toca no ponto do envolvimento dos pais nos momentos de lazer dos filhos, alimenta essa ideia, e prega que esse momento deve acontecer em ambientes naturais, mesmo que eles sejam muito pequenos.
A ideia então é não deixar os pais confortáveis porque seus filhos estão “lá embaixo no condomínio brincando”, protegidos por câmeras de segurança e em espaços preparados para conter qualquer risco.

É fazer com que os pais participem por uma hora no mínimo de alguma atividade que tire as crianças desses lugares super protegidos, só isso.
Depois, elas podem voltar para eles sim, afinal de contas, quem nunca teve uma turma de condomínio para aprontar todas na vizinhança não sabe o que perdeu, não é?
Ou seja, a proposta é começar aos poucos para trazer às crianças novos hábitos, novas descobertas, sem tirá-las de todo o universo que já conhecem. Promover trocas com paciência e com tempo, devagarinho.
Para eles é mais fácil concordar com essa novidade do que seria para você pensar hoje em dedicar uma hora por dia para essa atividade com eles. Acredite, eu vivo essa realidade.
Ocupação dos Espaços Públicos
Aí chega também nessas conversas a questão da Ocupação dos Espaços Públicos pois, se há uma movimentação dos pais em busca de passar mais tempo ao ar livre com os pequenos, existe também uma necessidade crescente de espaços para que isso aconteça.
Esses grupos têm se movimentado nesse sentido também, buscando parcerias com a iniciativa privada e com o poder público para que aconteçam melhorias em estrutura e segurança em locais públicos.

Nós sabemos que não é nada fácil hoje pensar em levar uma criança para um parque, aqui no Brasil. Eu vivo em um lugar onde ainda existem alguns privilégios neste aspecto: temos muitas áreas verdes e há muito policiamento, a coisa funciona bem até certo ponto.
Mas é preciso um pouco mais que isso pois esse direito é de todos, independente do bairro onde vivem e mesmo aqui, uma cidade que oferece algum conforto neste sentido, não é um mar de rosas e há lugares onde as crianças não tem condições de saírem às ruas para brincar.
Eu indico que, se você tem interesse por esse tipo de iniciativa, pesquise mais sobre os movimentos Anti Condomínio e a Ocupação dos Espaços Públicos dentro da sua cidade e se puder, una-se a eles. Estes pequenos passos podem começar a fazer a diferença para várias famílias na cidade onde você vive.
O “Brincar Livre” é possível no mundo todo?
Esse é um questionamento que me fiz algumas vezes: Como é o medo do risco real em diferentes sociedades do mundo?
Li há um tempo um post do jornalista Rubem Alves para a Folha de São Paulo que falava sobre algumas coisas interessantes.
A primeira delas era a pergunta: O que é que as crianças querem aprender?
Segundo ele, mais preciso seria perguntar “o que é que o corpo quer aprender” porque, como uma criança teria noção do que quer aprender?
A noção da necessidade vem de seu corpo! Perfeito isso!

E aí ele continuava: O seu corpo quer aprender o que precisa saber para se virar no mundo. Ele quer saber coisas que constroem o seu mundo e afetam a sua vida.
Assim, um indiozinho não teria qualquer interesse em aprender a fazer iglus, mas teria o maior interesse em usar o arco e flecha.
Isso, além de brilhante, acendeu essa luz aqui na minha cabeça sobre como as crianças entendem o brincar ao redor do mundo, e o quanto os pais compreendem e aceitam o medo dos riscos nas várias sociedades.
O Barco Viking
Através deste artigo, eu soube que o navegador Amyr Klink certa vez, quando perguntado sobre qual seria o método de educação ideal para os seus filhos disse que a escola certa era uma que ele conheceu quando esteve nas Ilhas Faröe, território da Dinamarca.
Lá, ele viu crianças construindo um barco viking — e talvez também estivessem construindo mais coisas ligadas a sua cultura — e isso era uma disciplina ou um atividade multidisciplinar onde elas estavam aprendendo várias coisas necessárias à sua vida cotidiana.

Pensei: Elas lá dentro estão lidando com marcenaria, com matemática, com física, com química e se divertindo demais ao mesmo tempo!
E seus pais? Como se sentiriam se pensassem em seus filhos de 10, 12 anos, mexendo em formões para cortar madeira, em serras fita super afiadas? (confesso que essa visão me deu um certo pânico)
E esse meu pânico também me trouxe, talvez, a resposta: cada sociedade vai lidar com a ideia do brincar livre através dos olhos da sua própria cultura. Se eles entendem que uma criança é capaz de lidar com uma serra, provavelmente sua concepção de “risco real” e “risco percebido” é muito mais flexível que a nossa.
A segurança pública também pode influenciar muito nisso. Ter liberdade para estar em um parque no final da tarde com as crianças dá a eles, desde bebezinhos, um conceito muito maior sobre liberdade que com certeza é bem diferente do nosso no Brasil.
De qualquer maneira, penso que precisamos construir com as ferramentas que temos.
Um parquinho, uma praça, uma escola aberta à comunidade nos finais de semana, já é um começo para tentarmos essa conexão com os pequenos e com o mundo ao redor deles.
Eu comi manga com leite e não morri! (Minha infância foi a última feliz?)
Então, temos aqui um fato. Eu não morri.

Aliás, eu fiz mais coisas ainda! Virei o chinelo na entrada de casa (com isso eu morreria ou matava minha mãe? Fiquei em dúvida agora…)
Comi melancia antes de dormir, chamei a loira do banheiro na escola, passei a noite olhando para o quadro no Menino que Chora, vi o filme do Kiss no Parque de Diversões esperando virar zumbi, queimei Bombril amarrado em barbante para fazer malabares (quem já viu isso na rua e achou bonito não sabe como eu era lindo na infância!)
Ainda bem que não éramos responsáveis pela avaliação de “risco real” assim como nossos filhos também não, porque, caramba… Minha infância foi um sucesso!
Fiquei pensando nas diferenças, até para conseguir entender onde eu poderia ajustar algumas coisas na minha própria vida com meus filhos.
Cada geração tende a achar que foi a última boa de verdade, fato.
Mas me lembro de minha mãe falando a pouco tempo algo como “vocês aprontaram todas, vocês foram mesmo muito felizes” como que consentindo que as coisas mudaram muito hoje em dia, da mesma forma que percebendo que eu e minha irmã nos divertimos mais do que ela quando criança.
Talvez nós tenhamos sido mesmo a última geração que entendeu por completo o sentido do Brincar Livre: Natureza, imaginação, brinquedos simples e ausência de tecnologias.

Essas coisas eram comuns para meus pais, mas para nós algumas melhorias já eram realidade e, por não termos acesso ainda a elas na época, continuávamos brincando como as crianças das gerações passadas.
Hoje, com as tecnologias tão acessíveis e tão baratas, o maior desafio não é trazer isso para o mundo dos pequenos (como era no meu tempo) e sim, tirar toda essa parafernália de perto deles.
É louco pensar nisso… Estamos tão conectados o tempo inteiro, e isso nos traz uma sensação falsa de segurança constante que, talvez, para alguns pais um risco real seja estar sem um celular em mãos quando estiver em um parque com seu filho.
Quando isso acontecer, lembre-se de você mesmo quando criança.
Você não precisava de nada disso. Passe, ao menos tente passar, esse sentimento para seu filho nesse instante.
Pode ser um começo, e como construtor de Domos e pai de duas crianças, além de filho de uma mãe que quase enlouqueceu comigo várias vezes, digo: esse é um caminho para começar a se desligar de tudo. Tente!
As síndromes psicológicas atuais já seriam um sinal de uma infância super protegida?
Vamos criar uma polêmica agora? Opa!
Aviso antes de tudo: Sou designer por formação e estudioso de diversos assuntos.
Um deles é psicologia e me interesso demais por psicanálise mas, não tenho qualquer formação nesta área, certo?
O que coloco aqui é somente minha opinião nessa conversa aberta com você.
Assim sendo, sim. Acredito que sim.
Não digo que as doenças sejam causadas somente por isso, claro que não, mas acredito que, usando parte do que disse antes sobre a Medicalização Infantil, nossa sociedade está criando condições para que as crianças adoeçam.
Aí, a sociedade também indica como cura para essas doenças a medicação exagerada em doses e compostos que no passado não seriam indicados para crianças.
Esses medicamentos geram novas doenças, que geram outras, e outras… e a roda não pára de girar.
Quando falo que a sociedade cria condições para o adoecimento, falo mesmo da super proteção. Dos pais que são amedrontados pelo ambiente em que vivem, que passam a acreditar que a vida ao ar livre é perigosa, que acabam expondo as crianças a situações impróprias para sua idade…
E as crianças começam a sofrer pelo excesso de energia acumulada, como comentei antes: doenças estomacais, estresse, ansiedade, depressão, obesidade…

A carga da super proteção não fica só com os pais, não. As escolas e creches repetem esse ciclo.
E por outro lado, muitas vezes os avós, que têm uma concepção mais antiga da infância e talvez bem mais próxima do ideal de “brincar livre” são repreendidos por estarem agindo com as crianças de “forma insegura”.
Eu continuo insistindo em dois pontos: Precisamos reavaliar o que nós acreditamos ser “risco real” e ajudar nossos filhos a não herdarem nossos medos e, precisamos estar com eles ao ar livre.
Isso pode ser a saída para uma sociedade um pouco melhor no futuro. Ao menos, acredito fortemente nisso!
Como as Pedagogias Waldorf e Montessori veem a ideia do Brincar Livre
Sou bastante suspeito para opinar sobre essas pedagogias. Suspeito não, eu diria que sou tendencioso mesmo!
Sou pai da Alice, uma garota esperta e linda que, no auge dos seus 15 anos de idade é para mim uma surpresa diária. Sou pai do Francisco também, um gurizinho incrível de 06 anos, meu pequeno explorador.
A Alice em especial é meu exemplo aqui: ela está em uma escola Waldorf desde pequenininha, e a diferença de suas atitudes e consciência quando a comparo com outras meninas de mesma idade mas com outra educação, é gritante.
E acredito de verdade que grande parte dessa diferença vem da abordagem que essas pedagogias têm do modo de ensino, algo muito parecido com o que comentei sobre o artigo do Rubem Alves: o aluno aprende o que o corpo, o entorno, o seu universo precisa aprender.

As coisas tem uma velocidade diferente, que à primeira vista pode parecer mais “lenta”. Porém, acontece uma explosão qualitativa após algum tempo do início da criança em sua grade de 12 anos de aprendizado.
E o Brincar Livre dentro de ambas é diretriz: as crianças aprendem demais brincando com o que o entorno oferece.
Aí o contato com a natureza, com a música e instrumentos naturais, a culinária, a permacultura, a religião em um sentido mais amplo (no caso da pedagogia Waldorf), a literatura, as ciências e matemática que vão se ampliando em acordo com a capacidade da criança de absorver as informações, vão acontecendo naturalmente.
Ao final de 12 anos, o currículo delas se equivale ao de qualquer escola convencional, porém o ganho emocional e intelectual das crianças é absurdo.

É como olhar duas plantinhas que cresceram juntas: uma, eu apenas reguei e a outra, adubei e usei a melhor terra para plantio desde broto. As duas me deram frutos, mas a que recebeu adubo e terra ideais rendeu os melhores frutos e é muito mais forte e frondosa que a outra.
E sabe, é assim que vejo meus filhos: Quero que sejam árvores frondosas e fortes, que saibam se defender das tempestades sem temê-las, e que de seus frutos venham as melhores mudas que jamais foram vistas.
E acho que a pedagogia Waldorf tem me ajudado muito nisso.
As “Pegadas do Brincar”: O Projeto Alemão que quer trazer as crianças para as ruas novamente
Nos anos 90, a cidade de Freiburg na Alemanha percebeu que as crianças tinham simplesmente sumido das ruas.
Na época acontecia um resquício do Nacionalismo, um pouco propagado por jovens punks que não tinham realmente qualquer noção do que isso significava mas, que de uma forma ou de outra, acabaram aumentando os índices de vandalismo na cidade.
Isso não aconteceu especificamente nos anos 90, foi um processo que veio se arrastando desde o meio dos anos 80 até mais ou menos 93, quando a “prefeitura” da cidade percebeu essa situação.

Ficou claro para eles mais uma coisa: As crianças estão presas em casa e nas escolas por muito tempo, por medo desse aumento de vandalismo e violência. Isso traria problemas futuros.
Talvez por lidar com resquícios de guerras violentas o país já tinha uma percepção maior sobre a saúde mental das pessoas e entendia que essas crianças teriam sérios problemas se algo não fosse feito por elas.
Ou seja, era bem mais que cortar o vandalismo e a violência na cidade. Era cuidar dos futuros cidadãos e afastar todos de drogas, doenças psicológicas e um futuro perdido.
Percebido tudo isso, a prefeitura entendeu que era necessário “seguir” essas crianças.
Elas precisavam ter espaços para brincar que estivessem ao longo do caminho que faziam de casa para a escola, para que pudessem começar a ver a diferença acontecendo ali mesmo, no entorno de onde viviam.
E foi aí que o Projeto Pegadas do Brincar começou, transformando áreas abandonadas próximas a escolas em espaços para as crianças brincarem ao ar livre, cuidando dos riscos reais mas sem retirar os riscos percebidos, para que elas pudessem se desenvolver totalmente, brincando ao ar livre.
Isso deu enormes resultados. Além de melhorar muito a questão da juventude, que passou a modificar hábitos (houve uma retomada de estudos de uma parcela grande de adolescentes) a cidade conseguiu encher de crianças estes espaços, reduzindo doenças crônicas e melhorando os índices de aprendizado geral.
Aí eu concluo: Brincar ao ar livre é mais que remédio, é vida pura!
E o que seria possível realizar nesse sentido no Brasil?
Acredito que, como comentei antes na questão da Ocupação das Cidades, que é necessário um caminho onde andam juntos, o poder público e as ações sociais isoladas, como o movimento “Anti Condomínio”.
A revitalização de áreas abandonadas já deu certo em vários lugares aqui no Brasil.
Basta que você dê um “google” sobre “revitalização” e muitos projetos vão pular na sua tela, quase todos criados em comunidades carentes.
São ideias que visam reduzir índices de violência em determinadas regiões, assim como garantir alimentos orgânicos (várias ações plantam alimentos) e também trazer as crianças para brincar em locais seguros.
O caminho pode ser esse sim.
É mais árduo do que em lugares onde os espaços públicos precisam lidar somente com áreas abandonadas, e não com violência instalada, como a Noruega e Canadá?
É sim, mas o que já foi feito no Brasil mostra que é possível.
Se é possível e se você tem vontade de participar, se informe mais sobre esses movimentos e se ligue a eles.
Tenho toda certeza de que cada pequena ação hoje resulta em algo gigante no futuro, pode apostar.
E o que é possível para você fazer HOJE?
Saia de casa e brinque com seu filho na grama! Observem formigas carregando alimento, encontrem sapinhos, tartarugas, façam bolinhos de barro, rolem na grama.
Ou só corram, brinquem de pique esconde, pega pega, Pés na grama, cabeça feliz.
Comece pequeno mas faça ainda hoje.
E se tiver espaço em casa, venha conversar comigo sobre colocar um Domo ali, para tudo o que as crianças puderem imaginar dentro dele!
Pense que tudo o que você pode fazer para seus filhos hoje pode não te custar nada, ou te custar muito pouco, perto da alegria e da saúde que eles terão no futuro.
E isso pode começar ali, correndo descalços na grama.
Abraço grande!
Jack